Quando vamos estudar um romance, há dois elementos que são essenciais para interpretarmos os livros: as personagens e o narrador.

As personagens podem ser interpretadas a partir da ideia de “atores em cena”. Ou seja, elas estão atuando e falando, e desenvolvendo o enredo.

Mas e o narrador? Será que ele é o “contador de histórias”? e se ele também for uma personagem? E se a narrativa parecer que é só uma “câmera”?

Todas essas questões envolvem uma área dos estudos literários chamada de “Foco narrativo” e elas são centrais, quando vamos estudar escritores brasileiros consagrados, como Machado de Assis ou Clarice Lispector.

Além disso, as questões de Foco Narrativo, muitas vezes, são perguntas-chave em vestibulares, concursos e, claro, no ENEM.

Mas final, o que é Foco Narrativo? Como interpretar ele, em um conto ou romance?

 

A autoridade do texto (?): o narrador

As concepções clássicas (isso é, até meados do século 18), o narrador era o contador das histórias, ou seja, a autoridade do texto. Sabíamos da história através dele, porque ele tinha vivido o que nos contava.

A ideia de narrador-autoridade, fosse ele na primeira pessoa (“Eu vivi”), seja na terceira pessoa (“ele viveu”), vinha da noção didática da narrativa.

Em outras palavras, o narrador queria contar uma história para passar uma lição, criticar a sociedade, fazer uma pregação moral…

Bons exemplos desse estilo são romances como Tom Jones de Henry Fielding, Robson Crusoé de Daniel Defoe e Pamela de Samuel Johnson.

Nesse tipo de narrativa, tudo o que sabemos sobre as personagens e sobre o enredo, depende do narrador, e as perspectivas e ideias dos autores era de que seus narradores não teriam “nada a esconder”.

Ou seja: o narrador clássico quer transmitir impessoalidade.

 

Goethe e a “criação” da personalidade

De maneira geral, podemos dizer que foi o alemão J. W. Goethe em 1774 e seu romance Os sofrimentos do Jovem Werther que “inventou” a personalidade do narrador.

Inventar é um modo de dizer, já que os narradores já tinham uma personalidade antes, mas foi com Goethe que a personalidade do narrador se torna tão pessoal, que começamos a duvidar do que as personagens falam.

Como assim?

No romance, sabemos do caso de amor de Werther por Charlotte, apenas por suas cartas. Então podemos questionar se as personagens estão falando aquilo, mesmo, ou se tudo é uma criação da cabeça de Werther.

Essa técnica foi sendo aprofundada por autores como Charlote Brönte em O Morro dos Ventos Uivantes, Almeida Garrett em Viagens à Minha Terra e Álvares de Azevedo em Noites na Taverna.

Essa complexidade acerca do narrador vai sendo aprofundada, mas o narrador ainda era um “bastião moral”, ou seja, alguém que julgava as personagens. Isso muda com Flaubert, em 1856, com Madame Bovary.

Aqui acompanhamos a história de Emma, que traí o marido. Porém, diferente de romances anteriores, o narrador não julga Emma. Para horror da sociedade, machista e moralista.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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